ADQUIRA MEU NOVO LIVRO!

Compre aqui o livro 'A Menina que nasceu Poesia'

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Quem você deixou de ser quando cresceu?

Penso que estamos fazendo a pergunta errada.

Não sou psicólogo, nem tenho a pretensão de diagnosticar perfis, mas observando as crianças, temos alguns indícios de que certas respostas trazem certos padrões. Quando perguntamos a elas o que querem ser quando crescerem, as respostas, mais que profissões, vêm carregadas de ideais, afinidades e vínculos. Ao dizer "Quero ser médica!", uma menina sequer sabe onde está o coração, o rim, o que são artérias, mas ela vê na médica um cuidar, e é isso que ela quer levar adiante. O menino não quer ser jogador de futebol para ter contratos milionários, ele vê no atleta um herói, alguém que tem o nome aclamado onde quer que vá. Mas, crescemos...

Crescemos e os ideais vão dando passagem à realidade, e nossas escolhas são movidas mais pela frieza dos números que pelo calor de um horizonte. Não quero discutir aqui oportunidades e expectativas, minha reflexão vai para um outro canto: onde foi que perdemos o fio da meada da insanidade saudável (se é que posso dizer assim!). Por que vamos nos moldando ao que é normal, diariamente, apenas para sermos aceitos, aprovados, inseridos?

Não corremos mais riscos, nem rabiscos. Estamos num contínuo estou-sendo,  sem pausas, sem erros, sem ousadia, sem loucuras...apenas sendo.

Não quero propôr aquela mudança lair-ribeiriana de vida, não quero que você peça demissão e jogue uma mochila nos ombros, até porque você e eu sabemos que essa mudança a la Sextante não vai durar muito, logo surge outros motivos para nos "adultizarmos" novamente. Falo de pequenos gestos, de uma maturidade mais leve, mais despretensiosa, mais moleca. Falo de rir e chorar sem motivos aparentes, falo de gratidão, de vida nos relacionamentos, de relacionamentos com vida. 

Crianças querem ser muitas coisas, mas acredito que nenhuma delas escolheria apenas-ser. Se elas pudessem escolher e se fosse possível, seriam médicas-crianças, engenheiros-crianças, professoras-crianças, porque o que estraga tudo é a adultisse aguda que nos acomete assim, do nada, e quando vemos, somos um adulto-sendo. 

Tomamos café requentado, lemos revistas velhas em salas de espera, trocamos de canal pra ver se cai algo que nos preenche, rolamos o mouse esperando sei lá o quê, porque ser adulto é isso, é viver num eterno e enfadonho esperando-ser. 

E hoje temos 35, amanhã 50. Esperando, nos adequando, dando jeitos, empurrando...e a vida passa, não fomos nada. Nem médica, nem criança. Nada.

Hoje quero inverter o papel. Quero ser a criança que cansou de responder sobre profissões. Quero perguntar pra mim e pra você:
Quem deixamos de ser quando crescemos? 

Onde foi parar as amizades eternas juradas em cadernos de perguntas da 4ª Série, aquela do "Sol prometeu à Lua uma fita de cetim...?"

Cadê os risos que escapam quando não podem?

Por que tanto formalismos para abrir presentes, sendo que até ontem eu rasgava o papel e a embalagem juntos?

Em algum momento soltamos a mão dessa criança que nos motivou a estarmos aqui até hoje, e ela, em algum lugar, soluça baixinho um pranto contido pelos ternos, gravatas, agendas, celulares, afazeres...apenas esperando que a reencontremos. 

Eu queria ser muita coisa quando era criança, mas jamais sonhei ser o que sou hoje. Um adulto, existindo indiferente a tanta Vida. 

Sei que dá pra mudar. Acredito que, com a pergunta correta, eu possa dar novamente a mão pra criança que um dia perdi dentro em mim.

Espero o mesmo pra você. 

5 comentários:

  1. Digo-te com toda sinceridade...eu não mudei muito. Ainda molho o pão no café com leite, tomo banho de chuva na bica, ando descalça e ainda rasgo os papéis de presente(pra desespero da minha mãe que sempre quer guardar kkkkkk)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Você é uma querida e nota-se que não "cresceu" mesmo. De riso fácil e contagiante, tem sido um dos meus remédios para lidar com a vida "adulta". Abraços!

      Excluir
  2. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  3. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  4. Que reflexão! Ao ler fiz um passeio pelas muitas fantasias de criança que vamos perdendo forçosamente, ou não pela vida.

    ResponderExcluir