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terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Quem você deixou de ser quando cresceu?

Penso que estamos fazendo a pergunta errada.

Não sou psicólogo, nem tenho a pretensão de diagnosticar perfis, mas observando as crianças, temos alguns indícios de que certas respostas trazem certos padrões. Quando perguntamos a elas o que querem ser quando crescerem, as respostas, mais que profissões, vêm carregadas de ideais, afinidades e vínculos. Ao dizer "Quero ser médica!", uma menina sequer sabe onde está o coração, o rim, o que são artérias, mas ela vê na médica um cuidar, e é isso que ela quer levar adiante. O menino não quer ser jogador de futebol para ter contratos milionários, ele vê no atleta um herói, alguém que tem o nome aclamado onde quer que vá. Mas, crescemos...

Crescemos e os ideais vão dando passagem à realidade, e nossas escolhas são movidas mais pela frieza dos números que pelo calor de um horizonte. Não quero discutir aqui oportunidades e expectativas, minha reflexão vai para um outro canto: onde foi que perdemos o fio da meada da insanidade saudável (se é que posso dizer assim!). Por que vamos nos moldando ao que é normal, diariamente, apenas para sermos aceitos, aprovados, inseridos?

Não corremos mais riscos, nem rabiscos. Estamos num contínuo estou-sendo,  sem pausas, sem erros, sem ousadia, sem loucuras...apenas sendo.

Não quero propôr aquela mudança lair-ribeiriana de vida, não quero que você peça demissão e jogue uma mochila nos ombros, até porque você e eu sabemos que essa mudança a la Sextante não vai durar muito, logo surge outros motivos para nos "adultizarmos" novamente. Falo de pequenos gestos, de uma maturidade mais leve, mais despretensiosa, mais moleca. Falo de rir e chorar sem motivos aparentes, falo de gratidão, de vida nos relacionamentos, de relacionamentos com vida. 

Crianças querem ser muitas coisas, mas acredito que nenhuma delas escolheria apenas-ser. Se elas pudessem escolher e se fosse possível, seriam médicas-crianças, engenheiros-crianças, professoras-crianças, porque o que estraga tudo é a adultisse aguda que nos acomete assim, do nada, e quando vemos, somos um adulto-sendo. 

Tomamos café requentado, lemos revistas velhas em salas de espera, trocamos de canal pra ver se cai algo que nos preenche, rolamos o mouse esperando sei lá o quê, porque ser adulto é isso, é viver num eterno e enfadonho esperando-ser. 

E hoje temos 35, amanhã 50. Esperando, nos adequando, dando jeitos, empurrando...e a vida passa, não fomos nada. Nem médica, nem criança. Nada.

Hoje quero inverter o papel. Quero ser a criança que cansou de responder sobre profissões. Quero perguntar pra mim e pra você:
Quem deixamos de ser quando crescemos? 

Onde foi parar as amizades eternas juradas em cadernos de perguntas da 4ª Série, aquela do "Sol prometeu à Lua uma fita de cetim...?"

Cadê os risos que escapam quando não podem?

Por que tanto formalismos para abrir presentes, sendo que até ontem eu rasgava o papel e a embalagem juntos?

Em algum momento soltamos a mão dessa criança que nos motivou a estarmos aqui até hoje, e ela, em algum lugar, soluça baixinho um pranto contido pelos ternos, gravatas, agendas, celulares, afazeres...apenas esperando que a reencontremos. 

Eu queria ser muita coisa quando era criança, mas jamais sonhei ser o que sou hoje. Um adulto, existindo indiferente a tanta Vida. 

Sei que dá pra mudar. Acredito que, com a pergunta correta, eu possa dar novamente a mão pra criança que um dia perdi dentro em mim.

Espero o mesmo pra você. 

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

"A hipocrisia é uma impostura refletida". Luc de Clapiers

A moral, os bons costumes e o teatro em tentar ser o que não se é. 

Lembro da minha adolescência no período escolar. Pensava que era o senhor do mundo. Sabia de tudo, ou melhor, fingia que sabia para fazer parte dos "descolados". Procurava levar vantagem, sobretudo contra os superiores (professoras, diretores). Cada vez que eu conseguia obter certa vantagem, pensava: Eu sou o centro! Eu engano o sistema!

Acontece que a vida vai trazendo, além da idade, bagagens. Umas leves, outras pesadas, mas as bagagens estão ali, dentro de nós, para fazer com que recordemos de quem somos e onde fomos.

Uma das coisas que eu mais gostava de fazer no ensino fundamental era colar. Nem tanto pela avaliação ser difícil (modéstia às favas, eu sempre tive notas boas), mas eu era motivado pelo poder que a cola traz. Vem aquela sensação de chamar tudo e todos de tolos, de relapsos em suas vigilâncias. É aquilo do "tudo o que é proibido, ou engorda, ou faz mal ou é pecado". Voltando às bagagens, uma delas foi me mostrando com o tempo que o tolo somos nós, que pensamos estar levando vantagem, todavia não nos damos conta que a cada "jeitinho" dado é um atestado de nossa incompetência em sermos melhores que fomos ontem e piores que amanhã.

Por que vim trazer esse assunto aqui no Blog? Um pouco fui movido pela tristeza, e um outro tanto pelo senso de justiça. Cada caractere digitado aqui é como se minh'alma tomasse um banho de luz. Explico:

Alguns de vocês devem saber (não lembro de ter comentado aqui), que faço faculdade de Direito. Estou indo para o 3º ano. Amo demais essa Ciência, embora às vezes esse amor não se converta em boas notas, principalmente na Disciplina que será objeto desse relato: Direito Penal.

Como eu adoraria gabaritar nessa Disciplina!! Primeiro por satisfação pessoal, depois pela Professora que, a despeito dos desentendimentos, considero alguém apaixonada pelo que faz e consegue transmitir o que sabe sem prepotência. A minha tristeza é também não devolver em notas (apesar que acredito que nota não afere conhecimento), o que ela tão apaixonadamente leciona.

Pois bem, uma das coisas que mais me deixou feliz foi saber que sobre alguns assuntos relativos ao sistema prisional brasileiro, que as desigualdades sociais e regionais são fatores sim a serem considerados para se compreender o crime, que a punição em si só não tem base científica nem biológica que corrobore sua prática como diminuidora de ilícitos, que devemos trabalhar a causa e não os efeitos, enfim, assuntos para outras postagens que oportunamente o farei com prazer.

Esses assuntos nem de longe são unânimes na sala de aula. Infelizmente ainda ouvimos de ACADÊMICOS que "bandido bom é bandido morto", "gosta de bandido, então leva pra casa", e outros chavões engendrados pelo senso rasteiro fomentado pela opinião publicada, o que traz à sala discussões acaloradas, partindo às vezes até para o ad hominem.
Minha Professora de Direito Penal, além de muito estudo (o que nem sempre quer dizer sabedoria), tem um histórico voltado para a compreensão do crime. Ela sim tem contato com crime, eu não. Falo do que leio e vejo, humildemente reconheço isso. Porém não sou deslegitimado  a opinar só porque não "vivo no crime", apenas formulei meus conceitos lendo bastante sobre o assunto e notando que algo está errado, e isso não precisa ser PhD, aliás, nem se precisa estar numa cadeira acadêmica para perceber que quanto mais presídios se constroem, mais o crime aumenta. Estamos falhando em algum ponto dessa meada, mas como disse anteriormente, é assunto para outro dia. O que quero trazer aqui é um episódio que me entristeceu, mas ao mesmo tempo respirei aliviado por saber que estou numa sala com mortais, gente tão suja quanto eu ou quanto os governantes que eles tantos adoram cobrar probidade:

Numa das avaliações a Professora autorizou usar o Vade Mecum, mas enfatizou: Sem comentários, nem de autores nem os próprios. No máximo, pequenas notas nos artigos.

Tal foi a surpresa quando alguém na sala levantou a suspeita de que muitos alunos teriam passado todo o conteúdo de aula para as páginas em branco do referido livro, e isso, claro, causou decepção na Professora, que passou "revistando" Código por Código, mas nem precisou andar muita na sala: enquanto estava na primeira fileira, alunos de outras filas corriam desesperados tentando apagar as "provas dos seus delitos", rasgando folhas, apagando correndo o conteúdo transcrito. Qual a postura da Professora? Mandou que todos fechassem o Vade Mecum e avisou que enquanto ela lecionar pra gente, a consulta estaria vedada.

Talvez a Professora nem tenha percebido, mas eu não deixei de notar, (e aqui preciso fazer uma consideração importantíssima: nunca me coloquei como a corporificação da ética, mas nunca também tentei vender aquilo além de quem sou). Sou uma pessoa cheia de dilemas, pecados escondidos e neuras, mas sempre desconfiei de discursos morais demais, santos demais.

E essa minha desconfiança se comprovou quando ci que aqueles que foram pegos colando, ou que eu observava apagando a cola do Vade Mecum, são os mesmos que pedem a cabeça da Dilma, que falam em Mensalão, que repercutem o discursos "rachelsheherazadiano" do "amarre no poste, está no crime porque quer".

Aí fico me perguntando: são esses(as) alunos(as) que defenderão pessoas em breve? São esses profissionais que mudarão rumos de vida apenas com uma canetada?

Claro que essa é uma questão retórica, pois esses alunos também farão parte da política que tão veementemente reprovam.

Não estamos mais no Ensino Fundamental. Já não estamos mais na idade de pensarmos que levar vantagem é virtude. Não sei se muitos na sala notaram, mas ali é um lugar para se exercitar a reflexão. Que esse episódio sirva para refletirem que se bandido bom é bandido morto, colar é tão criminoso quanto furtar um toca-fitas de carro. Só não desejo o poste a eles, mas o arrependimento fruto dessa reflexão.
 




segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O rato roeu a roupa do Rinco: uma crônica de Rousseau até os dias atuais.

O rato roeu a roupa do Rinco: uma crônica de Rousseau até os dias atuais.


“Nada é tão admirável em política quanto uma memória curta.”
(John Kenneth Galbraith)

Preciso confessar: poucas coisas conseguem tirar meu sono. Moro contíguo a um pasto, mas o mugido bovino às madrugadas não me perturba. Minha filha me chuta à noite toda, mas durmo feito uma pedra. Dizem os meus próximos que se a cama for vendida e eu estiver em cima dela, talvez eu acorde somente dentro do caminhão.
Mas a política, essa tem conseguido. Acordo suado, ofegante. Como nos filmes de terror. Ora sou despertado pelos fantasmas do passado, como a frase de Rubens Ricúpero, sem saber que estava sendo gravado (lembram-se do escândalo das parabólicas?), que disse: “Não tenho escrúpulos. O que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde.”, ora desperto com os assombros atuais. E é desse que eu quero falar. Não que o passado não importa; pelo contrário. Até ressuscitei Rousseau. O presente é um desdobramento do passado, e se não tivermos cuidado, a engrenagem vai girar para o futuro, com consequências desastrosas.
Vou tentar, humildemente, resumir o pensamento de Rousseau, até porque, quem sou eu para lecionar Ciências Sociais! Aprendi que inteligência, influência e dinheiro, se você precisa mostrar que tem, é porque não tem. Mas peço a permissão dos graduados e experientes no assunto, para falar um pouco sobre O Contrato Social:
Rousseau acreditava que todo homem nasce bom e a sociedade o corrompia. Daí a necessidade de uma gerência superior, abstrata, fictícia. A essa “gerência” Rousseau denominou de “Contrato Social”.
Como funcionaria esse Contrato? Uma vez que o homem se visse corrompido, uma vez que ele se apercebesse que seus direitos estariam sendo lesados, ele invocava um “poder” meio que sobrenatural, para dirimir os conflitos. Nasce então a figura do Estado.
Rousseau chegou a dizer que o direito à propriedade só nasceu porque teve gente ingênua o bastante para acreditar num homem que cercou um pedaço de terra e chamou de seu. Concluiu: “Os frutos são de todos e a terra é de ninguém.” Utópico, concordo, mas tem lá seu fundamento.
Essa fica para outra prosa. Vamos voltar para o conceito de Estado em Rousseau. Falando em linguagem clara, se resolvêssemos desistir da gerência do Estado, estaríamos perdidos, uma vez que o Estado é a representação das “fatias” de quem somos e temos. Nossas liberdades, direitos e deveres estão todas lá, no Estado.
Sou estadista (essa polêmica fica pra outro dia), porque eu sei o quanto posso ser mal, cruel, mesquinho, egocêntrico. Preciso de leis e regras para viver, porque minha consciência já comeu a “fruta proibida” de viver em sociedade, de usar e ser usado, de romper relacionamentos por conveniência, por ausência de empatia. Enfim, sou humano.
A entrevista que Henrique Rinco concedeu à TV Vanguarda e à Rádio Capital poderiam “passar batidas”, só que Rinco foi além. Ele não emitiu apenas opiniões delirantes de uma direita envelhecida. Rinco cancelou o Contrato Social! Ao usar da lógica binária “esforço=sucesso”, ele se esqueceu (ou fez) que o PIB do mundo está nas mãos de 7% da população mundial, ou seja, 93% das 7 bilhões de pessoas no mundo inteiro não se esforçam o suficiente. Trazendo para Caçapava, todos os moradores do Pinus, Maria Elmira, Vila Paraíso etc., é um bando de vagabundo que se escora em políticas sociais do Estado. Os “esforçados” moram no Jataí, Jequitibá, Jardim Julieta etc. Essa é a lógica pobre de quem vê o pobre como produto da ausência do seu próprio suor, e não de um capitalismo que atropela tudo e todos que atrapalham seus “avanços”.
Rinco legitimou a ineficiência do Estado ao dizer que “o poder público não pode resolver todos os problemas do povo”. Mas quem disse TODOS, Prefeito? Quem precisa do Estado para esfregar as costas no banho, passar cuspe em joelho ralado e outras carícias da vida privada? Estamos falando em PODER PÚBLICO, Prefeito! Estamos falando em exigir DO ESTADO aquela parcela de direitos e liberdades que abrimos mão, para que tivéssemos o mínimo dos mínimos de nossa dignidade humana atendida. Está lá na Constituição, Prefeito! Artigo 5º, 6º, 70 dentre tantos.

Rinco não lê Rousseau, “malemá” (como diria minha avó italiana), lê o Jornal Simpatia. Sua fonte de pesquisa deve ser a Veja, onde certo colunista de nome Reinaldo Azevedo, disse que o povo “atrapalha a democracia, e que deveriam ser eliminados.” (VEJA Out/2009).
Ao dizer que “nunca precisou de serviços públicos”, Rinco escancarou um câncer que só o pobre sabe que existe: o Estado só serve como instrumento de dominação, onde o pobre “mendiga” atenção e o rico a distribui como lhe apraz.
Rousseau teria muito que ensinar a Henrique Rinco, mas talvez ele não queira ouvi-lo. Rousseau bem que poderia dizer ao nosso Prefeito:
- Ei, meu chapa! Você entendeu tudo errado!
Mas Rinco desdenharia.

 Estaria muito ocupado vomitando asneiras na “rádia”. 
Odorico Paraguaçú, o ator-político que encarnou políticos-atores.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Deus: Um conceito.



Antes de eu iniciar meu "conceito" sobre o "conceito" deus, vamos à definição do que seja conceito, que eu retirei de www.significados.com.br: 

"O termo "conceito" tem origem no Latim “conceptus” (do verbo concipere) que significa "coisa concebida" ou "formada na mente". Conceito pode ser uma ideia, juízo ou opinião. Ex: A discussão começou porque nós temos conceitos muito diferentes de relacionamento aberto". 



Então vejamos: 


Desde que o homem começou a se reunir em grupo buscando a sobrevivência, há relatos arqueológicos e antropológicos de que eles buscavam proteção de um ser superior contra ou a favor de suas ações aqui na terra.
Diziam que os raios eram o furor divino, dançavam para prosperar a colheita etc etc.
Existem deuses para cada homem e dezenas de deuses para cada necessidade deste mesmo homem.
Carl Sagan diz: "Não é porque há ausência de evidência que haja evidência de ausência'.
Minha discussão aqui não é sobre a existência ou não de deuses, e sim sobre suas formulações aqui embaixo. Explico:
Deus é um substantivo. Esse termo 'deus" foi criação da linguagem humana. É variável quanto ao lugar e à cultura, mas não deixa de ser fruto da linguagem.
Chuva, caneca, espelho, amor, dente, deus, sono...vejam, é tudo construção linguística.
Temos a ideia de deus sob uma visão de baixo para cima, e só. Por mais que queiram "provar" a existência de deuses, no máximo, tentam fazer por experiências abstratas, individuais e/ou coletivas. Não temos nada vindo de cima para baixo que corrobore nem a existência nem a substância divina.
Deus é apenas um conceito, como qualquer outro. Nem é especial, nem pode ser deixado de lado.
Quando uma mãe diz ao filho: "Vá com deus!", ela está adjetivando o "bem", "cuidado com a rua!", "ande na calçada!", e não necessariamente está pedindo que forças superiores andem como guarda-costas da criança.
Isto posto, explico minha saída das religiões, todas: se deus é um conceito, e ele o é, porque a fé que defende a existência de deus também é um conceito, por mais difícil que seja pra você aceitar isso, então eu decidi ser livre. Mas a liberdade não é um conceito? Sim, é. Mas é um conceito ético, humano, aqui de baixo.
Ser livre é ser responsável. Quanto mais liberdade, mais responsabilidade. Quanto mais responsabilidade, mais empatia, quanto mais empatia, mais humanidade.

Os ateus não estão errados em não "crer" em deus. Aliás, eles podem ter a resposta, porque se deus é um conceito, o "não-deus" é um fato. Fato? Sim. Porque não há nada vindo de lá que chancele as experiências cá.

Então, como eles podem ter a resposta? Porque estão livres desse conceito, há mais pureza e imparcialidade naquilo que enxergam. É irrelevante a existência e/ou crença em deus quando se age com uma liberdade responsável.
Se eu lhe perguntar: quantos números existem entre o 0 e o 1, você dirá que são infinitos. Mas se são infinitos, como se chega no 1?
Nisso consiste minha crença, em saber que dentro de milhões de oportunidades, só uma é certa: sou finito, dentro desse Universo. E como ser finito, minha liberdade é quem deve as regras, fazendo-me cada vez mais empático e ético nas relações humanas.
Vivendo assim, a existência de deus passa a ser secundária e até irrelevante. Sendo um conceito, construo-o ao meu modo, usando duas ferramentas: ética e liberdade.
Aí de mero conceito subjetivo, eu personifico a Virtude com a Prática.
Abrindo mão do conceito "deus".

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A Logística da Empatia

Como as relações humanas nos afetam, mesmo que não assumamos isso. 

Conheça e Dona Jeripoca. Dona Jeripoca é uma senhora de 58 anos que mora lá no Semi-árido. Dona Jeripoca sustenta 4 filhos e 5 netos. A família trabalha no roçado, que ora vinga, ora mirra.
Dona Jeripoca é beneficiada pelo Bolsa-Família, e com este programa ela garante o mínimo para subsistência dela e dos seus.
Com o dinheiro do Programa, Dona Jeripoca vai ao armazém do Seu. Tércio. Compra farinha , ovos, algumas batatas e feijão.
Seu Tércio conhece Dona Jeripoca desde sempre. Brincaram de bilboquê juntos. Até trocaram selinhos atrás da Igreja de São José Operário. O Padre Lúcio via e fazia vista grossa. Coisa de criança. Por conhecer Dona Jeripoca, Seu Tércio a deixa "pendurar a conta" muitas vezes, anotando os gastos em seu velho caderninho Tilibra.
Padre Lúcio, todo orgulhoso da reforma da igreja, fica horas e horas alisando o confessionário com lustra móveis. Nem deixa as irmãs fazerem o serviço. Ele, pessoalmente, trata daquele confessionário.
Dona Jeripoca às vezes vai lá se confessar: - Seu Padre, às vezes eu atraso o pagamento do Armazém e fico mal com isso, porque abuso da confiança do Seu Tércio. Mas é só alguns dias, ele nem chega a cobrar. Eu é que não gosto.
Dona Jeripoca é muito certa com as coisas. Não gosta de nada que não é seu. Foi então rezar suas Ave-Marias e ver um pouco de TV pra esfriar a cabeça. Entre uma notícia e outra, viu uma propaganda de material escolar: Cadernos Tilibra, 15,99.
Chamou o neto caçula, o Demizinho (carinhoso apelido para Ademir) e lembrou de cobrá-lo sobre a lição de casa, se ele já havia feito. O moleque fez que não com a cabeça e já ia saindo quando ela, num olhar, o paralisou: - Num estude pra tu vê! Vai ficar com as mãos assim, ó! - e mostrou os calos vindo do cabo da enxada. Madeira boa.
O menino correu pro quarto.
Aqui no Sudeste, Luis fora promovido. De auxiliar administrativo para supervisor. Estudou feito doido, mereceu a promoção. Ele trabalha na Tilibra, indústria e comércio de material de escritório, escolar etc. Seu Almeida já vinha acompanhando o desempenho do jovem, e deu a notícia no dia do aniversário de Luis: - Quero que saiba que você mereceu essa promoção! É pró-ativo, dinâmico...
Sem ter o que dizer, Luis apenas agradeceu com um aperto de mão e correu para o banheiro. Chorar. Chorou as noites mal-dormidas, os lazeres que se furtou, o desdém de pseudos-amigos e parentes. Sabia que podia ir mais longe, porque sua ambição era saudável.
Luis era amigo bem próximo de Bianca, Gerente de Vendas da Tilibra, e foi logo contar a ela a boa notícia: - Consegui! - disse ele, suspirando.
Bianca sorriu com o olhar e disse: - Eu já sabia, antes de você. Seu Almeida me contou numa viagem que fizemos a negócios numa feira no Nordeste. Disse que estava te sondando. Não contei nada para não estragar a surpresa.
- Olha você, com segredinhos comigo!? - brincou Luis.
A Feira rendeu novos negócios à empresa, que gerou aumento nas vendas, que gerou ânimo em Seu Almeida, que gerou a promoção de Luis. Um dos negócios fechados foi a Distribuição de Promotores de Vendas no Semiárido. Seu Tércio expôs alguns cadernos e ganhou uma agendinha. A agendinha onde ele marca as penduras de Dona Jeripoca. Mal sabe Dona Jeripoca, mas ela promoveu Luis, que sonha agora em viajar para o Nordeste no final de ano, agora que seu salário aumentará como Supervisor.
Brincadeiras à parte, essa história inventada diz uma coisa: sob o ponto de vista social, não existe o MEU dinheiro que sustenta OS OUTROS. Muita gente banca o que eu tenho, e eu banco a vida de muitos.
Agora pare com esse discurso elitista e enxergue o mundo além do seu quarto e seu edredom do Ben 10.
Antes que a Jeripoca pie. 
Imagem: http://www.digitalmipibu.com.br/2014_02_09_archive.html

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Simone, Valesca e Monique: guerreiras que libertaram um homem.


Não sei quem ensina e quem aprende mais na relação pai e filha. Só sei que a paternidade me desconstruiu. E estou amando!!






Estava quase colocando amarras sociais em minha filha de 7 anos, doutrinando-a a detestar funk, qualquer um, identificando-o apenas pela batida. É funk? É vulgar! Simples assim. Fui forj(ç)ado a acreditar que mulher tem que se dar o respeito, e como um detetive, comecei a caçar tudo o que, no meu padrão ético, em minha régua moral, fugisse do que eu entendia por respeitoso. Não queria minha filha rodando a bolsa ou postando fotos segurando tequila no Facebook futuramente. Sou pai, quero o melhor para ela! Mas existe uma frase que tem sido um norteador de muitas de minhas ações: "Algumas coisas o tempo leva, outras coisas o tempo traz." Parece óbvio, mas é assim que a banda toca! Se e tão somente se tomarmos consciência que a vida é um significar-se e ressignificar-se contínuo, vamos percebendo e protagonizando mudanças, vamos compreendendo que nos tornamos exatamente aquilo que pretendemos ser. Não quero desprezar a influência do meio, aliás, quero reforçar essa influência. Mas sem uma consciência de que eu sou produto e produtor do meio, eu simplesmente existo, não vivo plenamente. Foi essa consciência que me despertou para o homem que estava me tornando.

Peralá!! Dançar até o chão não a fará mais, ou menos mulher. Ela não será menos poderosa por ouvir uma que é muito poderosa. 
O que fará dela mulher (licença Dona Simone de Beauvoir , mas quero lhe usar: "Não se nasce mulher, torna-se!") é ela saber lidar com a mesma dificuldade que tenho hoje em lidar com mulheres que me cercam. E falo de esposa, mãe, irmãs.
Saber lidar a que me refiro é opor-se, enfrentar com maturidade, serenidade e coragem, ciente do preço a ser pago.
Não sou o homem que desejo ser, torno-me à medida que sou confrontado com aquilo que defendo. E creiam-me: é uma exposição constante, de perder dois dias, ganhar um, mas sempre seguir.

Minha filha não será menos plena por requebrar o quadril, ela o será por não quebrar paradigmas. Não será mais íntegra por ser uma "preparada", mas será indigna de seus direitos se eu não "prepará-la" corretamente.
Não perderá seu valor por aprender fazer "quadrado".
Eu sim, se continuar quadrado, perderei o meu. De pai, marido. De homem.


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Esquerda Caviar X Esquerda Maracujá

Um breve relato de um esquerdista esperançoso: 

Sou pobre.
Se posto que estudo em dois lugares ao mesmo tempo, mais do que prepotência, é sobrevivência. Estudo porque gosto e porque sou pobre.
Precisei e preciso de políticas de inclusão social  por algumas razões, mas a principal é que o Estado DEVOLVE em benefícios aquilo que abrimos mão de quem somos e temos para criá-lo, senão, Estado pra quê?
Sou de esquerda.
Se pra você isso é ideologia obsoleta, limitadora, para a História e muitos que a leem/investigam, não o é, inclusive pra mim. Se você defende que os serviços públicos estarão em melhores mãos se forem vendidos ao capital privado, nem perca seu tempo comigo. Quero que seja de qualidade, mas exijo que seja público, universal e gratuito.
Sou grato.
Moro num país que tenho um orgulho do car**** de morar. Temos água e riquezas naturais em abundância (se bem que qualquer coisa que não for bem cuidada, acaba), mas pelo menos temos chão pra multiplicar. Agradeço muito ao PT que teve coragem de governar para pobres como eu. Quero ganhar dinheiro, quem não quer? Mas quero olhar pra trás e ver onde estão minhas raízes, essas inegociáveis.
Você quer discutir Pasadena, Mensalão, Porto de Cuba...? Pra mim que se foda essas Instituições!! Eu quero é saber como está a barriga do sertanejo, do ribeirinho, do semi-árido. Pensamento pequeno? Talvez seja pra gente que pode discutir moralidades frívolas aqui, mas não o seja para o pai de família que como eu, não tinha o que dar para os filhos, até que veio um Bolsa-Família e livrou a cara deles.
Sustentar vagabundo?? Quem sustenta esse país não ganha nem um salário mínimo inteiro!! Milhões de serventes de pedreiro, porteiros, domésticas, ajudantes geral, cobradores de ônibus, fazem essa engrenagem chamada Brasil girar, e você vem me falar que o Bolsa sustenta vagabundo?
Quem ganha sem fazer nada é banqueiro, que morde juros promíscuos desse cartão de crédito que você ostenta e achaque está arrasando!!
E apesar de tudo, sou Dilma: Sou Dilma não porque ela seja A melhor, nem A menos pior, não voto por essa bifurcação idiota. Voto pelo todo. Não voto só por mim. Quero que as crianças continuem tendo acesso gratuito à Educação e Saúde. Quero um Estado mais intervencionista na Economia e mais humanizado no trato com seus cidadãos, sobretudo as minorias e vulneráveis. Sim, fiquei puto com as desapropriações na Copa. Sim, penso que a Dilma é "devagar quase parando" com a questão agrária. Mas no todo, "ainda", a balança ainda é positiva. O problema está na POLÍTICA, mas é um assunto pra outro dia, e cansei de molhar essa chuva.
Vivi os dois governos do  FHC e dois do Lula, sei bem onde estou fundamentando minhas convicções.
Sinceramente, se você vai votar no melhor ou no menos pior, anule ou vote em branco. O Brasil precisa amadurecer politicamente, e você atrapalha esse processo. 
Porém, esse desdobramento atual brasileiro serve como lição para os revolucionários, os indignados, que "deitaram eternamente em berço esplêndido" e assistiram, passivos, como eu assisti, à surra midiática que levou e leva o Partido dos Trabalhadores. Fico triste quando descubro que existe Esquerda Caviar, mas o pior caso é o da Esquerda Maracujá: gente passiva, calma, só se defendendo e olhe lá. Nós temos a mea culpa de fazermos vista grossa aos ataques (quando fundamentados, seletivos) que o Partido dos Trabalhadores sofre desde 2004, 2005. Dez anos de julgamentos obscuros, esquemas de bastidores, Gushiken inocentado depois de morto, Direitos Humanos desrespeitados etc etc.
Se não sairmos da indiferença agora, pode esquecer: o Brasil voltará à época das Capitanias Hereditárias.
Engasgue com seu caviar, jogue fora esses calmantes de pacificação social que só interessam a ricos e poderosos.
Boa tarde!
Crédito: http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2013/06/20/militantes-da-cut-sao-agredidos-e-expulsos-de-protesto-no-rio-de-janeiro.htm

domingo, 12 de outubro de 2014

Estrelas

Estrelas

Por que me avisaram que as estrelas cadentes não são na verdade estrelas?
Por que não querem que eu seja feliz?
Eu gostava da mágica no céu!
E agora, o que será dos pedidos que fiz?

Sinto o vazio agora dentro de mim
Talvez a morte fosse a solução
Todo sofrimento então teria fim
Embora em minha sepultura morasse a solidão

...
Quando você engasga, dá a impressão que ri
Quando você ri, dá a impressão que eu menti...

Por que tem sempre alguém procurando definições para tudo?
Colocam nomes em átomos e planetas...
Por que eles enumeram tudo o que veem pela frente? 
Até minha casa tem número, como se eu quisesse ser encontrado!

Sentado, observo a tristeza discutindo com a solidão, 
Coisas tão bobas que nem convêm mencionar.
O relógio corre, mas o suor cai da minha testa
Molhando essas palavras que minh'alma detesta.

Por que todos querem se entender, se caminham de mãos dadas 
Ao encontro do sofrer
Que eles, inocentes,
Chamam de prazer?

As luzes estão apagadas e a fumaça da vela que ilumina minha mente
Faz umas sombras estranhas na parede
Agora eu sei que as estrelas não caem
Agora eu sei que não vim da cegonha
Não sei qual minha preferência:
Se busco experiência ou se me alegro na inocência...

Minha vida é um livro aberto, mas as traças, conhecidas como regras
Estão me devorando!...

Por que se eu não comer toda a refeição, não ganho presente? 
Deixe que eu morra de fome e verás que sou inocente!
Eu quero liberdade, mesmo que não tenha privacidade
Você quer ler o que escrevo? Fique à vontade!

Agora que aquela luz que cruza o céu não passa de um meteoro
O que vou fazer?
Desmentir todas as cartas de amor
Que escrevi pra você?

Não se preocupe, puxe uma cadeira, beba um café e relaxe.
Observe comigo a sombra que a fumaça da vela faz na parede
Observe a discussão entre a tristeza e a solidão, observe o correr do relógio.
Só não enxugue minhas lágrimas. Por quê?
Porque descobri que as estrelas não caem. 

*Fragmentos que encontrei em minha caixa de recordações, escritos lá pelos meus 11, 12 anos. 

Crédito na Imagem: http://artebetopiccolo.blogspot.com.br/2012/12/natal-com-arte-noite-estrelada-de-van.html

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Apenas um

Apenas Um. 

Sou apenas um, no meio dos seus pensamentos.
Nem sei porque estou aí, se não fui convidado!
Descubro a cada dia que convivo ao seu lado,
Que a sua alma chora quando sente fome,
E essa fome, somente palavras doces podem saciar.

A bandeja está posta à mesa, Você não vai se servir?
Coloque sua mão em meu rosto, veja como ele dói,
Sinta as dores que a vida me reservou.

Agora preciso parar, já não ando mais, 
Minhas mãos estão estão enfraquecidas,
Ninguém me sustentou, meu leito me espera.

Guarde essas palavras em qualquer lugar,
Depois suba no mais alto monte da ignorância
E grite para que a loucura escute, 
Todas as palavras que saírem do seu coração.
É um alívio para as dores que a vida lhe reservou...

Deixe-me morar em sua mente, até encontrar uma pousada certa.
Afinal, sou apenas um. 
Crédito da Imagem: http://recantodosautores.blogspot.com.br/2011_09_24_archive.html

Texto escrito quando eu tinha uns 11, 12 anos. Resolvi eternizá-lo na rede. 


domingo, 5 de outubro de 2014

Figos à Janela

Figos à Janela

Velha Figueira, que brotou em minhas terras,
Teus galhos tortos ao meu telhado se estendem,
Suas velhas folhas acobertam minha sacada,
A tua fúria contorceu o meu alpendre.

Por tua causa, oh Figueira presunçosa
Não vejo mais o rubro entardecer,
Nem sinto mais as tardes chuvosas
Tu me privas? Ou quereis me proteger? 

Figueira altiva, acolhestes animais!
Aves e roedores fazem seus ninhos em ti,
Mas tu roubaste, Figueira, minha Paz,
Migrando foi-se para bem longe de mim.

Egoísta Figueira, devolva-me o Sol!
Deixe penetrar o luar de outrora,
Não me sufoques com tuas garras esverdeadas,
Sinto saudades do brilho da aurora.

Só não a corto, Figueira imponente,
Pois embora vil, tua generosidade é bela!
Negas-me a paisagem dos tempos e estações. 
Mas seduz-me com figos à janela. 
Crédito da Imagem: http://joserosarioart.blogspot.com.br/2011/01/colecionismo-parte-2-jose-rosario.html


sábado, 4 de outubro de 2014

BECCARIA, A CAUDA DA LAGARTIXA E A PERGUNTA: "E SE FOSSE COM VOCÊ?"

BECCARIA, A CAUDA DA LAGARTIXA E A PERGUNTA: 

"E SE FOSSE COM VOCÊ?"


A lagartixa tem um dos mecanismos de defesa mais intrigantes do Reino Animal. Quando se vê ameaçada diante de um predador, ela "rompe" sua cauda e foge, fazendo com que o inimigo fique distraído com aquela cauda, ali, que se debate ao chão, meio morta. A lagartixa não se preocupa se vai ficar sem cauda, pois ela tem o poder da auto-regeneração. O importante é sair ilesa e distrair o inimigo.
Essa é a analogia que me veio à mente ao ler a obra "Dos Delitos e das Penas" (BECCARIA, Cesare. Edipro. São Paulo. 2003). Aliás, não a toa esse autor cita em seu texto "O Leviatã" Thomas Hobbes (p. 17). Para ele, Hobbes, o Estado é um dragão. Pra mim, está mais para lagartixa. Não no tamanho, mas na artimanha. Explico: Beccaria é discípulo da escola rousseana, que pregava o contrato social, a renúncia parcial que cada um faz de quem se é e do que se tem para criar uma ficção jurídica denominada Estado, assim mesmo, com letra maiúscula. O Estado nada mais é que a personificação de frações de liberdades individuais agrupadas em um ente, no caso, ele. A sociedade, num lento processo, viu que só poderia ser chamada assim "sociedade" se criasse regras para a convivência pacífica entre seus integrantes. Então ela "terceirizou" essa prerrogativa de patrulha ao ente Estado, que desde então passou a ditar as tais regras para pacificar a sociedade. Até aí tudo bem, algo visionário e que realmente funciona! Mas...o Estado, a despeito de ser uma ficção jurídica, é composto por pessoas que pensam que vivem uma ficção científica, e não poucas vezes usam do Estado para defenderem interesses alheios à coletividade. O Estado extrapola seus limites, ou seleciona os destinatários de suas regras. Aí que entram as leis.
Para que servem as leis? Ora, se o Estado detém a autoridade para a pacificação social, deveríamos supor que as leis servem para proteger o cidadão contra os exageros estatais, certo? Sim, deveria, mas o que ocorre é exatamente o contrário! Se não bastasse o Estado concentrar em si frações de liberdades individuais, ele, temendo o que pode ocorrer caso a sociedade perceba que ele é a lagartixa que foge, excluindo sua cauda, queira assumir o poder de novo, decidiu usar as leis para definir quem faz parte de sua cauda, quem será excluído, marginalizado, quem se debaterá ao chão enquanto os poderosos se distraem com essa agonia meio morta.
Vamos desenhar: o Estado é incompetente para gerir as satisfações sociais (e olha que sou Estadista!!), não consegue levar infraestrutura, saneamento, lazer, cultura de forma isonômica às regiões, então um grupo decide se rebelar, gritando: Alto lá, Estado!! Eu abri mão de quem sou e do que tenho para ter essa contrapartida sua, e você me abandona?! Quero minha liberdade de volta!! O que o Estado faz: criminaliza toda e qualquer reação social, apoiado, claro, pela opinião publicada, que é o inimigo que se distrai com a cauda convulsionante.  Com que ferramente a lagartixa solta sua cauda? Com as leis, sobretudo com as leis penais. Um Estado punitivista atesta sua dificuldade em aceitar que a cauda faz parte de sua composição, e que estratégias de exclusão só distraem inimigos. Quem perde, na verdade, é a lagartixa como um todo.
Uma apressada lida na obra de Beccaria leva-nos a acreditar que o autor quase que faz um Ode à Impunidade, uma Lusíadas ao Conformismo, mas ao ruminarmos a obra, desarmados de conceitos engendrados pelo senso comum, nos faz refletir sobre algumas questões: O que é crime? Quem é O bandido?
Vez ou outra escuta-se, quando o assunto é Direitos Humanos : DEFENDE BANDIDO? E SE FOSSE COM VOCÊ? 
Essa indagação peca pela ingenuidade e tergiversa pela desumanidade, porque, se o Estado excede, ele o faz com aquela parcela de liberdade que demos a ele, ou seja, cada um de nós excede. Se o Estado pune de forma excludente, meu martelo também está lá, sentenciando. Se o Estado peca pela omissão, eu também estou lá dando de ombros para os desassistidos. O Estado é a exata medida do que eu e você permitimos que ele seja! Isso não é uma visão romântica-esquerdista sobre o crime, bandido, pena etc, é uma constatação. Os poderosos não querem o fim do Estado (apesar de o neoliberalismo pregar a intervenção mínima, essa intervenção é na economia. Na segurança, querem a intervenção máxima!!) Os poderosos se contentam com a cauda solta, porque ELES NÃO FAZEM E NUNCA FARÃO PARTE DELA. 
Por que digo que essa é uma constatação? Vejamos alguns dados:
Com a terceira maior população carcerária do mundo (CNJ, 06/2014), o Brasil tem-se mostrado eficiente em matéria de soltar sua cauda, porque outro dado caminha na mesma proporção: segundo o Sétimo Anuário de Segurança Pública, realizado em 2013, os crimes em geral só têm aumentado. Homicídios (7,6%), Estupro (18%) em relação a 2012. Alguma conta não está batendo: Quanto mais se prende, mais o crime aumenta? Onde está a função pedagógica da pena? Será, e pergunto, será, que o crime especificamente no Brasil, não é mais fruto da exclusão social que de mera índole? Será que o bandido, ao cometer um crime, sabe que não tem nada a perder, por que ele, quando preso, só será legalmente excluído de uma sociedade que já o excluiu enquanto cidadão? Como podemos falar em REssocializar àqueles que nem SOcializados foram? Ninguém aqui DEFENDE BANDIDO, sei que você ao ler isto pode nadar mais fundo em questões sociais. Precisamos discutir o que o Estado tem feito daquela fração de nós que cedemos a ele, e não encontrarmos culpados entre os integrantes da cauda, enquanto a lagartixa escala as paredes da omissão. 
E é isso que tem acontecido: enquanto houver a cauda que se debate para distração dos poderosos, haverá assunto para o noticiário das nove. O Leviatã é mais nocivo do que pensamos.